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Jovens advogados de São Paulo se destacam na profissão em tempos de Lava Jato

12 / 08 / 2018

Por Ana Estela de Souza Pinto
Fonte: Folha de São Paulo

Ela mal tinha 28 anos quando abriu seu próprio escritório. Advogou na Lava Jato desde a primeira fase, em 2014, e neste ano, conseguiu que o ex-ministro Paulo Bernardo, seu cliente, fosse absolvido das acusações naquela operação na segunda turma do STF.

No mês passado, qualificou-se para o mestrado na USP, onde pesquisa colaboração premiada. Nascida em São Paulo, Veronica Sterman mora em Pinheiros, trabalha nos Jardins, mas talvez passe o domingo no Morumbi. Mais exatamente no Hospital Albert Einstein, onde está para nascer seu primeiro filho, Henrique.

Veronica faz parte de uma geração de advogados que se formou na última década, período quente na história política e policial do país, e conquistou espaços numa velocidade maior que a das turmas anteriores. “Houve um tempo em que o advogado de 45 anos ainda poderia ser considerado jovem. Eles estão cada vez mais precoces, sem perda de qualidade”, diz Sebastião Tojal, uma das referências em acordos de leniência no Brasil. Professor da USP desde 1985, ele afirma que a atual geração acelerou o caminho por ser multidisciplinar, dominar tecnologia e falar a linguagem do cliente.

Quando eles ainda estavam na faculdade de direito, o escândalo da vez era a ação no STF contra a venda de sentenças para beneficiar a máfia dos caça-níqueis e bingos. Enquanto eles faziam estágios, criavam gatos de raça ou surfavam no litoral norte, a Operação Navalha derrubava um ministro de Minas e Energia suspeito de beneficiar empreiteiras, e o Congresso abria CPI para investigar o apagão aéreo.

O grupo deu seus primeiros passos na profissão ao mesmo tempo em que começava o julgamento do mensalão, que durou 19 meses e terminou em 24 condenações.

E então a Operação Lava Jato catapultou as estatísticas a novos patamares: 115 prisões preventivas, 121 prisões temporárias, 175 colaborações premiadas, 11 acordos de leniência. E isso apenas no braço paranaense da investigação, e na primeira instância.

Curitiba foi o epicentro, mas é nos escritórios de advocacia de São Paulo que as ondas bateram mais forte, dando projeção também a áreas como compliance, direito administrativo e contratos, e exigiu uma conexão maior entre elas e o direito penal.

Nesse ambiente -mais exigente e mais complexo-, amadureceu a nova geração. Para dar rosto a seus representantes, a revista sãopaulo pediu a sete advogados consagrados que indicassem -sob anonimato- alguns de seus pares que, com menos de 35 anos, lhes tivessem chamado a atenção.

Há pouca coisa em comum nas origens e trajetórias desse grupo, do qual Veronica Sterman faz parte. Anderson D’Avila, por exemplo, nasceu há 31 anos em Arroio dos Ratos, localidade de 14 mil habitantes a 55 km de Porto Alegre. Natasha do Lago, 29, é de Salto Grande (SP), mas, filha de médico do projeto Rondon, morou em mais de dez cidades e deixou a casa da mãe na Bahia aos 16 anos para estudar em São Paulo.

Três são mineiros, de cidades diferentes. Ricardo Caiado, 32, nascido em Belo Horizonte, mudou-se para Vitória (ES), onde se formou. Conrado Gontijo, 30, é de Patos de Minas e pisou em São Paulo pela primeira vez aos 17 anos, sozinho, para terminar o ensino médio. Carlos Ayres, 34, nasceu em Machado e também concluiu os estudos na capital paulista, para onde veio com a mãe.

Em São Paulo nasceram Michel Kusminsky Herscu, 28, criminalista, e Juan Mena Acosta, 27, especialista em direito público. O primeiro apaixonou-se por direito penal ao assistir a um julgamento aos 17 anos e nunca mais mudou de área. O segundo, órfão de pai aos 5 anos, sonhava ser advogado desde criança, mas começou em funções administrativas, aos 15. Foi efetivado num escritório de direito em 2015, às vésperas de iniciar uma quimioterapia para um câncer já em metástase.

“Fiquei sem sobrancelha, pálido, horrível. Mas trabalhei como qualquer outro advogado, o que foi fundamental para minha saúde mental”, diz Acosta, que terminou o tratamento, bem-sucedido, em 2016. Montanhista, a primeira viagem que fez, logo em seguida, foi para o monte Huashan, na China, considerada a trilha mais perigosa do mundo.

Perfis diferentes são uma riqueza para quem coordena equipes, diz Cristianne Saccab Zarzur Chaccur, do escritório Pinheiro Neto, referência na área de concorrência. “O principal é que o jovem tenha entusiasmo. A partir daí, é preciso deixar florescer o que ele é, com suas características diferentes.”

Em comum, esses oito representantes da nova geração seguem um conselho do criminalista Fábio Tofic Simantob, ele mesmo uma espécie de precursor da precocidade -foi aos 20 anos que fundou o IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa), que hoje preside. “Não adianta vir com muita sede ao pote, pensando em subir rápido e enriquecer”, diz Simantob. “Os que serão reconhecidos como grandes advogados são os que têm a profissão na alma, os que a encaram como uma defesa dos valores da advocacia e da liberdade, mesmo que isso os indisponha com a opinião pública.”

Caiado, Herscu e Gontijo se envolveram em atividades do próprio IDDD e do Ibccrim (Instituto Brasileiro de Ciências Ciminais), que atua na área de direitos humanos.

Ayres, que há dois anos abriu seu próprio escritório, também reza por essa cartilha: “O foco de quem está começando não pode ser virar sócio. Isso é consequência. O foco é entregar trabalho de qualidade. O resto vem naturalmente”, diz o advogado, que atua com compliance desde 2002 e chegou a passar pela comissão de valores mobiliários dos EUA (SEC) em 2010.

Outra coincidência entre os oito é a resposta quando se pergunta o que fazem no tempo livre: “Não sobra muito tempo”. Gontijo, por exemplo, abriu o próprio escritório em 2016, aos 26 anos. Formou-se em 2010, engatou uma pós-graduação em 2011, fez mestrado de 2012 a 2015, especialização na Espanha e conclui o doutorado em janeiro de 2019. Escreveu ainda um livro sobre corrupção nas empresas e dá aulas no IDP.

Na faculdade de direito da FGV leciona Ayres, pai de um menino de três anos e à espera do segundo filho em setembro. Caiado já fez duas pós-graduações desde que se formou, em 2009, e hoje cursa um MBA em administração na FIA. Focado em compliance no escritório Campos Mello, quer entender melhor como pensam os executivos.

Nos últimos seis anos, Veronica saiu do país uma única vez, “por obrigação”, para ser madrinha de um casamento na Itália. “Sou muito mais escrava do trabalho hoje do que era antes de abrir meu escritório.”

Natasha também só desliga quando vai visitar a mãe em Cumuruxatiba (BA), onde o celular não pega. Hoje sócia do Ráo, Pires & Lago Advogados, onde começou como estagiária, no terceiro ano da faculdade. Diz que nunca ficou duas semanas em férias desde que se formou, em 2012. Há um ano, concluiu o mestrado que lhe tomava todos os sábados e domingos. “O fim de semana pareceu tão vazio que até estranhei”, brinca.

Não quer dizer que seja preciso virar todas as madrugadas trabalhando, diz uma das mais reconhecidas especialistas em compliance do país, Isabel Franco, do Koury Lopes Advogados. “O importante é o compromisso.” Primeira mulher sócia do escritório em que trabalhava, o então Demarest & Almeida, ela antecipou um movimento crescente: a presença feminina entre os advogados paulistas. Quanto menor a faixa etária, maior a presença de mulheres, que chegam a 60% entre os profissionais com menos de 30 anos. Além do equilíbrio entre os gêneros, diversidade tem se tornado tema importante nos grandes escritórios paulistanos. No Mattos Filho, D’Avila participa do programa #mfriendly, que em 2017 foi escolhido como “iniciativa de diversidade do ano” pela Latin Lawyer, publicação britânica que é uma das maiores referências no universo jurídico.

Também contam pontos o interesse por áreas e atividades amplas. “Tem que estar sempre muito bem informado, ler sobre várias coisas, literatura, história. O advogado que sabe tudo sobre sua área, mas não leu um livro, não sabe história, é um operário do direito. É como se fosse manco”, diz Simantob.

Além das leituras, D’Avila, morador da Bela Vista (região central) e frequentador de shows de rock, gosta de correr no parque Ibirapuera e, na cozinha, é o mestre do risoto de camarão.

Herscu, quando consegue escapar, vai surfar na praia da Baleia, no litoral norte de São Paulo. Para desestressar, o palmeirense sai de sua casa, na Pompeia, zona oeste, em sua moto Street Triple de 600 cc e passeia pela cidade. Acosta pratica esportes, nada em mar aberto e faz trilhas. Casado há dois anos, Caiado joga tênis com a mulher numa quadra da Vila Nova Conceição, na zona sul.

No espaço que se abriu com o fim do mestrado, Natasha começou a ler -sintomaticamente- “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust. Também ficou mais disponível para sua gata Florence, da raça sagrado da Birmânia, que está na origem de sua carreira. Aos 14 anos, montou um gatil. Vendeu três filhotes para uma paulistana, de quem ficou amiga. Quando chegou a época do vestibular, foi na casa dela que Natasha veio morar. Para pagar o condomínio, ainda no primeiro ano, conseguiu um estágio. No último período, ganhou sua primeira salinha, que dividia com uma advogada.

Nesse intervalo, o ritmo acelerou, diz ela. “Grandes operações fazem a gente amadurecer mais rápido. O direito penal cresceu demais, ficou muito rápido, com grandes casos, cooperação internacional.” É um panorama que exige iniciativa e criatividade, afirmam os advogados mais experientes.

Para Alberto Toron, um dos criminalistas mais prestigiados do país, “é preciso ser capaz de raciocinar em cima do caso, compreendê-lo e pensar numa estratégia”. “Não há mais soluções prêt-à-porter, de prateleira. Elas são construídas numa sociedade cada vez mais dinâmica”, acrescenta Tojal.

Holofotes e alta temperatura pedem ainda controle emocional. “Há gente com muita capacidade, mas sem controle para manter a lucidez. Nem agressividade nem timidez excessivas são salutares”, diz Celso Vilardi, professor da pós-graduação em direito penal econômico da Fundação Getulio Vargas.

Conciliação também é algo que está no horizonte dessa nova geração, preocupada em “acabar com esse dogma de que a Justiça brasileira é só conflito”, como diz Acosta. E eles já olham para os mais novos.
“A próxima geração de advogados precisa ser mais humana. Jogar cartas limpas para que as duas partes saiam contentes”, opina.

Natasha se encantou com a chance que teve, durante o mestrado, de dar aulas, principalmente para os primeiro-anistas. “É recompensador ajudar com as dúvidas que aparecem nesse período.”

D’Avila também assumiu como meta treinar os mais novos no seu escritório. “É injusto dizer que eles querem trabalhar menos. Eles querem mais desafios e mais reconhecimento. Querem ver o sentido de ficar tanto tempo no trabalho.”