{"id":14386,"date":"2023-10-20T15:43:22","date_gmt":"2023-10-20T18:43:22","guid":{"rendered":"https:\/\/cmalaw.com\/?post_type=conteudos&#038;p=14386"},"modified":"2023-10-23T12:26:10","modified_gmt":"2023-10-23T15:26:10","slug":"voce-sabia-que-os-povos-tribais-e-indigenas-devem-ser-consultados-de-forma-previa-livre-e-informada","status":"publish","type":"conteudos","link":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/conteudos\/voce-sabia-que-os-povos-tribais-e-indigenas-devem-ser-consultados-de-forma-previa-livre-e-informada\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea Sabia que os povos tribais e ind\u00edgenas devem ser consultados de forma pr\u00e9via, livre e informada?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, a 11\u00aa Turma do Tribunal Regional Federal da 1\u00aa Regi\u00e3o (TRF1) ratificou a senten\u00e7a que responsabilizou o munic\u00edpio de Oiapoque, localizado no Amap\u00e1, pelo pagamento de danos morais coletivos no montante de R$ 100.000,00 (cem mil reais) \u00e0 Comunidade Quilombola de Vila Velha do Cassipor\u00e9 que se encontra no mesmo munic\u00edpio. A condena\u00e7\u00e3o se deu em raz\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o de obras na regi\u00e3o sem a realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de consultas aos habitantes locais. A decis\u00e3o se alinha \u00e0s diretrizes estabelecidas pela Conven\u00e7\u00e3o n\u00ba 169 da OIT, a qual foi utilizada como fundamento para a condena\u00e7\u00e3o e desempenha papel crucial na salvaguarda dos direitos das comunidades ind\u00edgenas e tribais em \u00e2mbito global (TRF-1. 11\u00aa Turma. Newton Ramos. Reexame Necess\u00e1rio n\u00ba 1000002-56.2021.4.01.3102. D.J.24.07.2023). Mas voc\u00ea sabe o que \u00e9 a Conven\u00e7\u00e3o n\u00ba 169 da OIT?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Conven\u00e7\u00e3o n\u00ba 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) \u00e9 um tratado internacional que versa sobre Povos Ind\u00edgenas e Tribais e estabelece normas importantes para a promo\u00e7\u00e3o do respeito aos direitos humanos, a preserva\u00e7\u00e3o das culturas e a garantia da participa\u00e7\u00e3o dessas comunidades na tomada de decis\u00f5es que as afetam. Em 2002, o Brasil aprovou o texto da Conven\u00e7\u00e3o por meio do Decreto Legislativo n\u00ba 143\/2002 e, em 19 de abril de 2004, promulgou a OIT 169, por meio do Decreto Federal n\u00ba 5.051\/2004. No cen\u00e1rio atual, a Conven\u00e7\u00e3o est\u00e1 vigente no territ\u00f3rio nacional por meio do Decreto Federal n\u00ba 10.088\/2019, demonstrando o compromisso institucional do pa\u00eds \u2013 e que independe de governo \u2013 em respeitar e proteger os direitos das comunidades ind\u00edgenas e tribais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando aspectos humanit\u00e1rios e culturais inerentes ao respeito e prote\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas e Tribais, o tratado instituiu diversos instrumentos de import\u00e2ncia fundamental para ampliar a influ\u00eancia das popula\u00e7\u00f5es tradicionais nas decis\u00f5es estatais (de licenciamento, por exemplo), incluindo, entre outros, a obrigatoriedade de realiza\u00e7\u00e3o das consultas pr\u00e9vias livres e informadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, o Decreto Federal n\u00ba 6040\/20071, que institui a Pol\u00edtica Nacional de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel dos Povos e Comunidades Tradicionais, converge com a classifica\u00e7\u00e3o prevista na Conven\u00e7\u00e3o n\u00ba 169 e define em seu art.3 \u00ba:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>I \u2013 Povos e Comunidades Tradicionais: <\/strong>grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas pr\u00f3prias de organiza\u00e7\u00e3o social, que ocupam e usam territ\u00f3rios e recursos naturais como condi\u00e7\u00e3o para sua reprodu\u00e7\u00e3o cultural, social, religiosa ancestral e econ\u00f4mica, utilizando conhecimentos, inova\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas gerados e transmitidos pela tradi\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>II \u2013 Territ\u00f3rios Tradicionais: <\/strong>os espa\u00e7os necess\u00e1rios a reprodu\u00e7\u00e3o cultural, social e econ\u00f4mica dos povos e comunidades tradicionais, sejam eles utilizados de forma permanente ou tempor\u00e1ria, observado, no que diz respeito aos povos ind\u00edgenas e quilombolas, respectivamente, o que disp\u00f5em os arts. 231 da Constitui\u00e7\u00e3o e 68 do Ato das Disposi\u00e7\u00f5es Constitucionais Transit\u00f3rias e demais regulamenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A despeito de n\u00e3o enunciarem expressamente, os dispositivos acima possuem inspira\u00e7\u00e3o na Conven\u00e7\u00e3o OIT 169 e n\u00e3o deixam d\u00favidas sobre a abertura do conceito ali inscrito e sobre a aplicabilidade dos dispositivos da referida Conven\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades tradicionais, reconhecidas como povos tribais (DUPRAT,2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a Corte Interamericana de Direitos Humanos<strong>*<\/strong>, &#8220;comunidade tribal&#8221; \u00e9 caracterizada pela rela\u00e7\u00e3o profunda e inclusiva com suas terras ancestrais, que n\u00e3o se concentra no indiv\u00edduo, mas na comunidade como um todo. Al\u00e9m disso, essa comunidade tribal possui um conceito comunal de propriedade. Portanto, uma &#8220;comunidade tribal&#8221; refere-se \u00e0 comunidade que mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o especial com suas terras ancestrais e uma concep\u00e7\u00e3o de propriedade comunal, assim como ocorre com os povos ind\u00edgenas (Corte IDH. Caso do Povo Saramaka Vs. Suriname. Exce\u00e7\u00f5es Preliminares, M\u00e9rito, Repara\u00e7\u00f5es e Custas. Senten\u00e7a de 28 de novembro de 2007. S\u00e9rie C No. 1722.; Corte IDH. Caso da Comunidade Mayagna (Sumo) Awas Tingni Vs. Nicar\u00e1gua. M\u00e9rito, Repara\u00e7\u00f5es e Custas. Senten\u00e7a de 31 de agosto de 2001. S\u00e9rie C No. 79.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Tribunais brasileiros, de maneira geral, entendem que as comunidades tradicionais s\u00e3o aqueles grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas pr\u00f3prias de organiza\u00e7\u00e3o social, que ocupam e usam territ\u00f3rios e recursos naturais como condi\u00e7\u00e3o para sua reprodu\u00e7\u00e3o cultural, social, religiosa, ancestral e econ\u00f4mica, utilizando conhecimentos, inova\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas gerados e transmitidos pela tradi\u00e7\u00e3o (TRF-1 &#8211; AC: 00176134620164013900, Relator: DESEMBARGADORA FEDERAL DANIELE MARANH\u00c3O COSTA, Data de Julgamento: 18\/04\/2018, QUINTA TURMA, Data de Publica\u00e7\u00e3o: 14\/05\/2018; TRF-4 &#8211; AG: 50272345320194040000 5027234-53.2019.4.04.0000, Relator: V\u00c2NIA HACK DE ALMEIDA, Data de Julgamento: 22\/10\/2019, TERCEIRA TURMA).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Supremo Tribunal Federal, por meio da ADI 7008 de 2023, que contesta a Lei n\u00ba 16.260\/2016 do Estado de S\u00e3o Paulo, autorizando a concess\u00e3o de \u00e1reas estaduais \u00e0 iniciativa privada para a explora\u00e7\u00e3o de atividades de ecoturismo e extra\u00e7\u00e3o comercial de madeira e subprodutos florestais trouxe uma defini\u00e7\u00e3o para as comunidades quilombolas e &#8220;demais comunidades tradicionais&#8221;, citando o art. 1\u00ba da Conven\u00e7\u00e3o n\u00ba 169 da OIT, al\u00e9m de definir que os povos tribais assim se caracterizam, em raz\u00e3o das suas condi\u00e7\u00f5es sociais, culturais e econ\u00f4micas que os distingue de outros setores da coletividade nacional, e que est\u00e3o regidos, total ou parcialmente, por seus pr\u00f3prios costumes ou tradi\u00e7\u00f5es ou por legisla\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o por outro motivo que os povos tribais, ou comunidades tradicionais e ind\u00edgenas, devem ser consultados de forma diferenciada, n\u00e3o devendo ser sua consulta confundida com a audi\u00eancia p\u00fablica dos processos de licenciamento ambiental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os artigos 4\u00ba, o 6\u00ba e o 7\u00ba da Conven\u00e7\u00e3o n\u00ba 169 da OIT versam sobre as formas de consulta, os quais preveem que (i) medidas especiais s\u00e3o necess\u00e1rias para proteger os interesses das comunidades ind\u00edgenas e tribais, incluindo a consulta pr\u00e9via em projetos que possam afetar seus direitos e territ\u00f3rios; (ii) os governos devem consultar as comunidades de boa-f\u00e9 e, sempre que poss\u00edvel, com o objetivo de obter seu consentimento; e (iii) a realiza\u00e7\u00e3o de\u00a0consulta ser\u00e1 necess\u00e1ria sempre que pol\u00edticas e programas de desenvolvimento possam afetar diretamente essas comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consulta tem por pressuposto, portanto, o dom\u00ednio dos povos ind\u00edgenas e tribais sobre a sua exist\u00eancia e a expectativa de que, eventualmente, a\u00e7\u00f5es externas podem representar impacto sobre seu modo de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consulta pr\u00e9via coaduna, especialmente, com o art. 5\u00ba, I, da Resolu\u00e7\u00e3o CONAMA\/1986 que, por seu turno, determina que o impacto ambiental deve \u201c<em>contemplar todas as alternativas tecnol\u00f3gicas e de localiza\u00e7\u00e3o do projeto, confrontando-as com a hip\u00f3tese de n\u00e3o execu\u00e7\u00e3o do projeto<\/em>\u201d (DUPRAT, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, destaca-se o entendimento de que a consulta pr\u00e9via pode ser revisada a cada etapa do projeto, com o objetivo de se manter a antecipa\u00e7\u00e3o, a boa-f\u00e9 e o di\u00e1logo cont\u00ednuo com as comunidades tribais e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existe um procedimento de consulta estipulado pela OIT 169 ou previsto em lei, pelo contr\u00e1rio, ela se adapta \u00e0s particularidades de cada comunidade, de acordo com o seu Protocolo de Consulta, caso existente, j\u00e1 que \u00e9 essencial que o grupo afetado compreenda plenamente o projeto e que essa consulta seja feita de acordo com a forma como eles gostariam de ser consultados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, a recente decis\u00e3o do TRF1 proferida nos autos do Reexame Necess\u00e1rio n\u00ba 1000002-56.2021.4.01.3102, que condenou o munic\u00edpio de Oiapoque ao pagamento de dano moral coletivo \u00e0 Comunidade Quilombola de Vila Velha do Cassipor\u00e9 por falta de consulta pr\u00e9via em obras na regi\u00e3o, \u00e9 exemplo pr\u00e1tico a respeito da aplica\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios acima mencionados e refor\u00e7a a import\u00e2ncia de sua efetiva implementa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mais informa\u00e7\u00f5es, consulte nosso time de Direito Ambiental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*<em>O Brasil ratificou a Conven\u00e7\u00e3o Americana sobre Direitos Humanos no ano de 1992 (Decreto Federal n\u00ba 678\/1992) e reconheceu a compet\u00eancia jurisdicional contenciosa da Corte IDH para fatos posteriores a 10 de dezembro de 1998 (Decreto Federal n\u00ba 4.463\/2002).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Principal contato:<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/cmalaw.com\/equipe\/vilmar-luiz-graca-goncalves\/\">Vilmar Gon\u00e7alves<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>E:<\/strong>\u00a0<a href=\"mailto:vilmar.goncalves@cmalaw.com\">vilmar.goncalves@cmalaw.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"featured_media":14391,"parent":0,"menu_order":0,"template":"","categories":[],"tags":[],"voce-sabia":[],"class_list":["post-14386","conteudos","type-conteudos","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/14386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos"}],"about":[{"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/conteudos"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/14386\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14393,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/14386\/revisions\/14393"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14391"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14386"},{"taxonomy":"voce-sabia","embeddable":true,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/voce-sabia?post=14386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}