{"id":8598,"date":"2022-09-16T15:42:15","date_gmt":"2022-09-16T18:42:15","guid":{"rendered":"https:\/\/cmalaw.com\/?post_type=conteudos&#038;p=8598"},"modified":"2023-06-28T21:41:22","modified_gmt":"2023-06-29T00:41:22","slug":"tcu-determina-que-lucro-ilegitimo-por-fraude-em-contratos-publicos-deve-ser-devolvido","status":"publish","type":"conteudos","link":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/conteudos\/tcu-determina-que-lucro-ilegitimo-por-fraude-em-contratos-publicos-deve-ser-devolvido\/","title":{"rendered":"TCU determina que lucro ileg\u00edtimo por fraude em contratos p\u00fablicos deve ser devolvido"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Marjorie Iacoponi<\/em><\/p>\n<p>Em decis\u00e3o recente, o TCU firmou o entendimento de que as empresas envolvidas em fraudes de licita\u00e7\u00e3o e contratos administrativos dever\u00e3o restituir o \u201clucro ileg\u00edtimo\u201d.<br \/>\nO entendimento do Tribunal formalizou-se por meio do Ac\u00f3rd\u00e3o n\u00ba 1842\/2022, emitido na sess\u00e3o de julgamento de 10\/8\/2022, no \u00e2mbito de um processo de tomada de contas iniciado como desdobramento da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.<br \/>\nO processo teve por objetivo quantificar eventual dano residual, causado \u00e0 Petrobras, pelas empreiteiras que foram contratadas para implanta\u00e7\u00e3o de conjuntos de instala\u00e7\u00f5es na Refinaria Abreu e Lima.<br \/>\nA tese foi emplacada pelo ministro Antonio Anastasia, rec\u00e9m-chegado no TCU. At\u00e9 ent\u00e3o, o Tribunal entendia n\u00e3o lhe caber buscar a restitui\u00e7\u00e3o dos lucros indevidos.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Origem<\/strong><\/span><\/p>\n<p>No argumento utilizou-se, por analogia, a teoria do \u201cproduto l\u00edquido\u201d, praticada na Espanha, bem como a teoria do <em>disgorgement<\/em>, adotada nos Estados Unidos, sendo essa \u00faltima a mais conhecida pelos estudiosos do mundo jur\u00eddico.<br \/>\nPela teoria do <em>disgorgement<\/em>, quando existe algum tipo de fraude contratual, a exemplo da forma\u00e7\u00e3o de cartel e uso de documentos falsos, n\u00e3o bastaria simplesmente cortar o sobrepre\u00e7o ou ressarcir o superfaturamento. Em outras palavras, a pessoa f\u00edsica ou jur\u00eddica n\u00e3o pode lucrar com seu pr\u00f3prio erro \u00e0s custas de terceiro, beneficiando-se de quantia acrescida a seu patrim\u00f4nio.<br \/>\nPara o Tribunal, essa teoria \u00e9 cab\u00edvel no Direito Brasileiro, conforme interpreta\u00e7\u00e3o das disposi\u00e7\u00f5es da legisla\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o TCU menciona que o pr\u00f3prio Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) tem exigido, desde 2012, a restitui\u00e7\u00e3o dos lucros ileg\u00edtimos em raz\u00e3o de il\u00edcito oriundo de contrato administrativo, sendo uma das teses a necessidade de buscar o<em> status quo ante<\/em>, que deve ser restaurado a partir da declara\u00e7\u00e3o de nulidade do contrato administrativo.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Entendimento<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Com base nas teorias estrangeiras, na legisla\u00e7\u00e3o e jurisprud\u00eancia do STJ, o TCU chegou \u00e0s seguintes conclus\u00f5es:<\/p>\n<p>(i) a restitui\u00e7\u00e3o de lucros ileg\u00edtimos est\u00e1 fundamentada no princ\u00edpio da veda\u00e7\u00e3o do enriquecimento sem causa, assim como no princ\u00edpio de que ningu\u00e9m pode se beneficiar da pr\u00f3pria torpeza e ainda nos efeitos retroativos da declara\u00e7\u00e3o de nulidade;<\/p>\n<p>(ii) a restitui\u00e7\u00e3o dos lucros ileg\u00edtimos tem amparo legislativo no C\u00f3digo Civil e na Lei Federal n\u00ba 8.666 de 1993;<br \/>\n(iii) o enriquecimento sem causa de uma pessoa n\u00e3o necessariamente decorre do empobrecimento de outra;<br \/>\n(iv) a restitui\u00e7\u00e3o dos lucros ileg\u00edtimos n\u00e3o importa qualquer redu\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio das empresas infratoras, mas apenas promove o seu retorno ao estado em que se encontrava antes da pr\u00e1tica do il\u00edcito; e<br \/>\n(v) a restitui\u00e7\u00e3o de lucros ileg\u00edtimos n\u00e3o \u00e9, em regra, uma san\u00e7\u00e3o, mas sim uma consequ\u00eancia jur\u00eddica de natureza predominantemente civil, ainda que possa ser exigida tamb\u00e9m nas esferas penal e administrativa.<br \/>\nOu seja, para o TCU, o lucro ileg\u00edtimo difere-se da repara\u00e7\u00e3o por danos causados ao er\u00e1rio e do superfaturamento dos contratos.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Incertezas<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O Tribunal, contudo, no caso concreto, n\u00e3o chegou a uma conclus\u00e3o acerca do valor de lucro ileg\u00edtimo que deveria ser restitu\u00eddo, determinando \u00e0 Petrobras que verifique junto \u00e0 Advocacia Geral da Uni\u00e3o (AGU) e \u00e0 Controladoria Geral da Uni\u00e3o (CGU) se a exig\u00eancia de restitui\u00e7\u00e3o dos lucros ileg\u00edtimos foi inclu\u00edda nos acordos de leni\u00eancia e de colabora\u00e7\u00e3o celebrados com a Odebrecht e com a OAS.<br \/>\nCom rela\u00e7\u00e3o aos particulares de boa-f\u00e9, a unidade t\u00e9cnica do Tribunal ressalta que a indeniza\u00e7\u00e3o deve ser a mais ampla poss\u00edvel, ou seja, equivaler ao pre\u00e7o justo e abarcar a execu\u00e7\u00e3o do objeto e os danos emergentes (lucros cessantes e eventuais preju\u00edzos decorrentes da anula\u00e7\u00e3o).<br \/>\nPortanto, o entendimento do Tribunal foi fundamentado em bases te\u00f3ricas, sem enfrentar par\u00e2metros pr\u00e1ticos de c\u00e1lculo. O racional de lucros leg\u00edtimos adotado pelo TCU faz sentido do ponto de vista jur\u00eddico, mas \u00e9 preciso ter cautela com o uso concomitante de conceitos te\u00f3ricos, at\u00e9 mesmo para evitar o enriquecimento sem causa, como defende o pr\u00f3prio Tribunal.<br \/>\nNesse contexto, diversas perguntas ainda devem ser respondidas, tais quais: como esses conceitos jur\u00eddicos devem ser aplicados no c\u00e1lculo dos valores a serem restitu\u00eddos? Teria o TCU, de fato, compet\u00eancia para aplicar a san\u00e7\u00e3o de perda de bens e valores acrescidos ilicitamente ao patrim\u00f4nio do particular?<br \/>\nAcompanharemos de perto de que forma a decis\u00e3o do TCU ser\u00e1 aplicada pelas autoridades p\u00fablicas, Poder Judici\u00e1rio e demais \u00f3rg\u00e3os de controle, principalmente para defender o direito dos particulares de boa-f\u00e9 que sejam impactados por essa decis\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/mailchi.mp\/cmalaw\/cadastro-newsletter-pn\">Inscreva-se na newsletter P\u00fablico &amp; Not\u00f3rio para receber mais artigos como este em primeira m\u00e3o.<\/a><\/p>\n","protected":false},"featured_media":13730,"parent":0,"menu_order":0,"template":"","categories":[],"tags":[],"voce-sabia":[],"class_list":["post-8598","conteudos","type-conteudos","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/8598","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos"}],"about":[{"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/conteudos"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/8598\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13729,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/conteudos\/8598\/revisions\/13729"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13730"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8598"},{"taxonomy":"voce-sabia","embeddable":true,"href":"https:\/\/cmalaw.com\/homolog\/wp-json\/wp\/v2\/voce-sabia?post=8598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}