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Seguradoras esperam disparada nos sinistros em meio à pandemia

24 / 04 / 2020

Indenizações de viagens e eventos podem crescer até 150% em relação a 2019

Por Juliana Schincariol e Flávia Furlan — Do Rio e de São Paulo
Valor Econômico

Em meio aos desdobramentos da pandemia do novo coronavírus na economia brasileira, o setor de seguros já espera um forte crescimento no volume de sinistros pagos aos clientes, com potencial de chegar a um dos maiores níveis da história. Em alguns ramos, especialistas esperam que as indenizações podem mais que dobrar, em comparação ao que vinha sendo desembolsado antes da crise.

Em geral, os contratos de seguros não incluem ressarcimento devido a pandemias, pelo risco incalculável que essas situações representam, mas as seguradoras estão analisando as apólices para entender, caso a caso, se há espaço para cobertura. “Cada contrato de seguro é único e vai prever determinadas coberturas e exclusões, mas os segurados vão apresentar notificações em produtos específicos”, diz Marcela Hill, advogada do escritório Campos Mello.

Historicamente, grandes catástrofes levam a um elevado pagamento de sinistros, como terremotos ou tsunamis, mas são pontuais e limitadas a países ou regiões. “Essa pandemia é globalizada. Pode ser um fato inédito para fins de sinistros de seguradoras e resseguradoras”, diz Jaqueline Suryan, também do escritório Campos Mello, acrescentando que os próprios segurados tendem a buscar compensação para riscos não cobertos.

Nos ramos como viagens e eventos, especialistas apontam que o aumento das indenizações pode chegar a 150%. Devido à covid-19, houve cancelamento de eventos como o torneio de Wimbledon – cujo valor do seguro foi estimado em mais de 100 milhões de libras – e as corridas de Fórmula 1. “O mercado parou. Estão esperando normalizar a pandemia e a crise para reavaliarem”, diz o diretor de linhas financeiras da Willis Towers Watson, Álvaro Igrejas.

Já no caso do seguro garantia, o aumento dos sinistros pode chegar a 70%, a depender de descumprimento contratual do tomador. Nessa modalidade, há casos de linhas ficando mais caras, o que deve ficar mais evidente nas próximas semanas, quando ocorrerão renovações de apólices. Jorge Sant’Anna, presidente da BMG Seguros, diz que o seguro garantia de performance deve ser mais impactado nessa crise.

Esse seguro ressarce o contratante de uma obra em caso de abandono, e muitas dessas construções devem começar a ter paralisação por falta de recursos dos governos e das empreiteiras, principalmente pequenas e médias. Grandes concessionárias, que operam estradas e aeroportos, também podem vir a ter problemas. “As seguradoras já estão com dificuldades em repassar o risco desse tipo de operação às resseguradoras internacionais, devido ao aumento do risco e de pagamento de indenizações pelo mundo”, disse Sant’Anna.

No ramo de vidas, em que a cobertura no caso de pandemias é excluída, algumas seguradoras decidiram pagar sinistro em caso de morte por covid-19. Neste grupo, está a MAG Seguros (ex-General Aegon), especializada em seguro de pessoas, que ainda não percebeu grande diferença em seus indicadores. “Temos alguns estudos, mas até agora não houve grande impacto. Os ramos mais afetados são as coberturas por morte e internações, e, em um segundo nível, as coberturas de invalidez”, afirmou o diretor de serviços de marketing da empresa, Leonardo Lourenço.

As seguradoras ainda não publicaram estatísticas com relação aos aumentos efetivos de sinistros em 2020. No ano passado, a receita anual de prêmios do mercado foi de R$ 119,3 bilhões, alta de 5,76% em comparação a 2018, segundo dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep). Já o pagamento de sinistros foi de R$ 47,7 bilhões – crescimento anual de 5,5%. Os ramos de viagens e eventos pagaram R$ 275,5 milhões e R$ 303 milhões em indenizações, respectivamente, no ano passado.

Segundo o presidente da Confederação Nacional de Seguros (CNSeg), Márcio Coriolano, não tem sido verificada uma demanda maior por sinistros, e um “boom de indenizações” não está em seu cenário. Setores pressionados, em sua opinião, têm instrumentos para mitigar os riscos. Ele diz que as seguradoras que estão optando por pagar os sinistros, no caso dos seguros de vida, fizeram os cálculos para isso. “É mandatório que haja um cálculo dessa natureza. A seguradora olha o cliente dela, a capacidade de fazer essa cobertura, calculando como recuperar de outra forma e fazer provisões”, afirmou.

De qualquer forma, o cenário daqui para frente pode ser de mais restrição das seguradoras. O advogado Fábio Ramos, sócio do Bichara Advogados, afirma que as novas apólices devem ser adaptadas para excluir expressamente eventos mais catastróficos, caso das pandemias e endemias. Foi o caso do atentado às torres gêmeas do World Trade Center, de 11 de setembro de 2001. Depois dele, as apólices passaram a adotar a exclusão de eventos terroristas. “Não acho difícil que venham exclusões mais categóricas”, disse.